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Conselho Estadual de Cultura

28/09/2017 17:00

Semana de Talentosidades promove protagonismo dos idosos

A mesa de debates foi composta por Ninfa Cunha, Ana Vaneska de Almeida e Edwin Neves

A mesa de discussões foi composta por Ninfa Cunha, Ana Vaneska de Almeida e Edwin Neves


Rompendo a invisibilidade com muita disposição e alegria, a Semana de Talentosidades do Espaço Xisto trouxe nesta segunda-feira, 25, para a mesa de debates a discussão sobre as políticas públicas de cultura voltadas para a terceira idade.

Com a presença da vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura Ana Vaneska de Almeida, de Edwin Neves, representando a Fundação Gregório de Mattos, e de Ninfa Cunha, coordenadora do Espaço Xisto Bahia, a mesa tratou principalmente de questões voltadas para a necessidade de criação de leis que tocam o fazer artístico e o protagonismo cultural do idoso.

Ninfa Cunha é coordenadora do Espaço Xisto Bahai

Para Ninfa Cunha,  realizadora da segunda edição do projeto, pensar um trabalho em conjunto, possibilitou que novamente na primavera, o regozijo, a vibração e a pulsação desse público retornasse ao Espaço Xisto.

"Plantamos sementes em 2016, hoje estamos colhendo flores belíssimas. A convite do secretário de Cultura, Jorge Portugal, assumi a responsabilidade de transformar o Espaço Xisto em referência de acessibilidade cultural e a terceira idade é um público que o Xisto quer atingir", explicou a coordenadora do espaço.

A invisibilidade ainda é grande. Políticas públicas de cultura e projetos de lei que tratem de questões voltadas para o idoso são escassos. A legislação que contempla esse tema é restrita ao Artigo 20 do Estatuto do Idoso que o vê apenas como consumidor de cultura. Não há nenhuma legislação que toca no fazer artístico, no protagonismo dessas pessoas.

"Somos diferentes, mas temos nossas potencialidades, e essas potencialidades devem ser vistas. Para uma escuta e um olhar atento é preciso que hajam sim políticas públicas culturais voltadas para esse segmento", completou Ninfa.

Ana Vaneska apresentou experiência geracional em escola do subúrbio ferroviário
Partindo de acúmulo numa perspectiva cultural, Ana Vaneska de Almeida, membro da Câmara de Patrimônio do Conselho Estadual de Cultura, acredita que discutir o idoso é também a salvaguarda dos saberes e fazeres culturais, respeito e reconhecimento à memória popular.

"Não dá pra considerar nenhum tipo de mudança substancial na sociedade sem que ela passe pela cultura e pela educação. Trago reflexões que para mim terão que ser feitas pelos grupos: Que tipo de relação queremos construir com as outras gerações? Que tipo de iniciativas nós podemos construir para que isso se dê numa perspectiva de identificação?", questionou a educadora e gestora cultural, apresentando vídeos com experiências realizadas entre uma escola municipal e um grupo de idosos, num registro do convívio inter-geracional no mesmo espaço, e a possibilidade de troca de experiência enriquecedora com outra geração.

Representando a Fundação Gregório de Mattos (FGM), Edwin Neves tinha como principal objetivo ouvir as demandas para posterior análise das possibilidades que a Fundação, vinculada da Secretaria de Cultura e Turismo de Salvador e responsável pelas políticas públicas de cultura do município, poderá abraçar em apoio aos projetos do segmento.

Neves alertou para os Encontros Territoriais de Mobilização que acontecem entre 25 e 30 de setembro articulando para as eleições do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Cultura de Salvador. E indicou a importância da participação do segmento nas discussões que permeiam e definem o universo das políticas culturais. 

SEMANA DE TALENTOSIDADES -

Pessoas a partir de 60 anos, individualmente ou em grupos, apresentam música, dança, teatro, poesia, pintura e fotografia. De caráter não competitivo, a semana dedicada à valorização artística do idoso, além da mostra de talentos, ofereceu palestras quanto às questões de envelhecimento.

Na mesma tarde de discussões densas a respeito das políticas culturais para a terceira idade, grupos se apresentaram no palco do Espaço Xisto. Os grupos Samba de Roda Vida e Tradição e o Viva Voz fizeram a programação cultural vespertina do evento, nesta segunda-feira. 

Apresentação artística da terceira idade
Maria Romualda da Conceição, 64, faz parte dos grupos Viva Voz, e Samba de Roda Vida e Tradição. Sambadeira e tocadora de instrumentos como chocalho e pandeiro, a idosa acredita que movimentar o corpo dançando, cantando ou batendo palma renova e fortalece a saúde.

"O evento é uma iniciativa muito boa que faz com que os idosos saiam do sofá e da frente da televisão. Uma motivação para lembrarmos dos nossos antepassados", revelou a aposentada que durante o ano inteiro busca fazer sempre novas apresentações, mesmo em festas de aniversários dos membros.

Maria da Graça Nascimento, 72, uma das fundadoras do grupo Viva Voz, dança e canta no grupo de teatro musical. "É maravilhoso, uma efervescência de alegria e expectativas positivas. É como se fôssemos garotas nos apresentando pela primeira vez, mesmo já tendo 14 anos de apresentações. O Viva Voz para mim e para meus colegas funciona como nosso ansiolítico, nosso antidepressivo", explicou a artista.

Iracema Pereira Barreto dançou e brincou muito durante sua apresentação com o grupo Viva Voz. "Deus sabe que estou aqui brincando até o dia que ele me chamar. Hoje, estou aqui suada, e o médico já mandou parar um pouquinho porque estou muito danadinha", brincou a aposentada que faz parte dos grupos Viva Voz, Samba de Roda Vida e Tradição, Sambadeiras do Sesc, e também do Coral dos Barris. 

Quel entoa o Samba de Roda Vida e Tradição
Glofelda Nascimento dos Santos, a cantora Quel de 71 anos, é integrante do grupo Samba de Roda Vida e Tradição. Participando pela segunda vez do evento, ela notou a receptividade das pessoas na interação com o samba. "Qualquer atividade que o ser humano participa, independente da idade, ativa o emocional, e se tratando da terceira idade, o artístico afeta muito mais, pois há um resgate da valorização pessoal. Depois de uma apresentação dessas, ficamos vários dias em ação de graças", confessou a professora aposentada nativa da cidade de Cachoeira, tradicionalmente conhecida como cidade do samba.

Lícia Moreira trabalha na Associação dos servidores aposentados e Pensionistas da Previdência Federal na Bahia (ASP/CAP). Durante a Semana de Talentosidades, expôs o artesanato produzido pelos idosos. "É gratificante o desenvolvimento de um trabalho junto aos idosos. Muitos são pessoas maravilhosas que gostam de viver, de interagir, são muito dispostos e gostam de participar de oficinas. A pessoa idosa precisa de atividades que lhe proporcione uma vida melhor, alegria, satisfação, bem estar. Quando há um retorno financeiro da exposição de artesanato produzido por eles, percebo um renascimento. Talentos escondidos passam a ser de novo valorizados. É sensacional, uma experiência extremamente positiva, uma renovação de vida", defendeu a expositora.

Mazé Lúcio, produtora do evento, trabalha com o grupo Viva Voz há treze anos, e sempre buscou estar nos melhores palcos de Salvador. "Vimos que existem outros grupos tão bons ou mais bonitos, resolvemos juntar tudo e fazer uma Mostra de talentos para combater a invisibilidade. Por este palco já passou dança de salão, dança coletiva, dança de rua, teatro, poesia, samba de roda. Temos muito talento, sou uma artista, fui a minha vida inteira e o palco para mim não tem idade, o artista não tem idade, os idosos detém os saberes e devem passar isso às gerações mais novas", explicou a produtora.

"Ano passado o grupo Viva Voz ganhou um prêmio do Ministério da Saúde por tratar a saúde pelo viés da cultura, da música. O Ministério da Saúde quis comprovar o quanto é útil para o idoso manter uma atividade prazerosa. Ele foge da UPA, foge de dezenas de comprimidos todos os dias, melhora a saúde. Essas atividades conservam a saúde física e mental do idoso. Gente feliz não dá trabalho e toma menos remédios", explicou Mazé.

Yorran D’Lafé faz parte de uma rede com 54 instituições que trabalham com idosos. Para ele, os idosos vivem lutando para acabar com a infantilização que fazem da terceira idade. "Tentamos trazer luxo, glamour, beleza nos espetáculos. Coordeno o projeto Miss Bahia Terceira Idade, e todas as vezes tentamos surpreender através da qualidade do nosso trabalho", defendeu Yorran.

Maria do Carmo Neta, professora de teatro e dança para terceira idade tem um grupo de quinze pessoas. Ela relata que a maior dificuldade é não ter palco para apresentar o trabalho que já desenvolveram. "Temos um trabalho para idosos chamado Cabaré de Furica, não permitido para menores de 16 anos, somos caprichosas com o figurino, as coreografias, e com toda a produção do espetáculo", disse Neta, revelando a carência de espaço destinado aos ensaios do grupo.

Os grupos precisam de formação, inclusive orientação sobre editais. Muitas dificuldades devem ser superadas para a almejada acessibilidade cultural. É imprescindível a discussão que vise não só o acesso físico, mas também o acesso comunicacional dessas pessoas. Nesse sentido, Ana Vaneska sugeriu levar as pautas do processo criativo do produto cultural na terceira idade, do debate geracional, bem como, o de acessibilidade para o plenário do Conselho Estadual de Cultura da Bahia.

Segundo a coordenadora do Espaço Xisto Bahia, localizado nos Barris, em Salvador, é uma felicidade ter conseguido cativar esse público e trazê-lo. "É tanta energia reunida que quando esses grupos vão embora, deixam um vazio muito grande no espaço. Para o ano que vem, já vamos criar as pautas da Semana de Talentosidades, pois estas pautas entram como projeto estratégico do Xisto, pautado independente de convocatória", festejou Ninfa. 

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