Conselho Estadual de Cultura

19/03/2018 09:00

Patrimônio, Povos Tradicionais, Capoeira e Samba encerram mesas do CEC no FSM

Capitaneando o Comitê de Políticas Culturais que congregou diversas organizações, instituições e movimento sociais, o Conselho Estadual de Cultura encerrou sua participação no âmbito do Fórum Social Mundial na sexta-feira, 16, com uma vasta gama de mesas e debates no Museu de Arte da Bahia.

Logo no começo da tarde, o arquiteto e ex-superintende do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Eugênio Lins, e o conselheiro estadual de cultura e diretor-geral do Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (IPAZ), João Carlos de Oliveira, abordaram questões ligadas às dinâmicas do patrimônio material e imaterial. A mediação da mesa ficou por conta do conselheiro estadual de cultura e diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo.

Mais ainda antes da primeira mesa ser aberta, o presidente do CEC, Emílio Tapioca, e a vice-presidente Ana Vaneska, leram para os presentes o manifesto “vida que te quero viva” (confira aqui) elaborado pelo Comitê na quinta-feira, 15, em repúdio ao extermínio de mulheres negras, cujo o emblema foi o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) na quarta-feira, 14.

“Não é possível tratar de patrimônio, sem falar do patrimônio mais essencial que é a vida. Não podemos tratar dos patrimônios quilombolas e indígenas se investem contra suas terras exterminado os sujeitos que neles vivem”, asseverou Ana.

Em seguida Zulu Araújo abriu as atividade da mesa declarando que “patrimônio é o mundo, patrimônio é a vida, e está de fato em constante movimento, independente da sua gestão política, ele está sempre vivo e em transformação”. 

João Carlos de Oliveira apresentou uma leitura de patrimônio a partir da perspectiva cultural, destacando memórias de espaços que já não existem mais nas cidades e só podem ser recordados por fotos. “A Igreja Nossa Senhora da Candelária no Rio de Janeiro, por exemplo, é um espaço coletivo, por isso está em constante transformação. Seu entorno passou por grandes transformações, hoje ela está inserida em uma paisagem urbana muito diferente daquele de quando foi construída, que era o estilo de arquitetura portuguesa antiga”, comentou.

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Já Eugênio Lins abordou em sua apresentação os aspectos e relações das questões sociais com as leis culturais e relatou sua experiência com o projeto de identificação dos mestres e artífices da construção civil tradicional (típica) da Chapada Diamantina. Projeto fruto de parceria do IPHAN com a Universidade Federal da Bahia onde aproximadamente 20 municípios da região foram objeto de estudo aprofundado, com realização de inventário de suas riquezas culturais. 

Além disso, o projeto ofertou capacitação aos moradores da região a fim de inserir suas práticas e seus detentores de conhecimento no contexto mais amplo das políticas públicas (culturais). “Conhecemos muito bem não só os sítios de estudo, mas o povo daquele lugar, as suas práticas e os seus cultivos. É importante valorizar a produção local até para que o recurso fique na própria comunidade, para que ela siga se desenvolvendo de sua maneira e alimentando suas práticas e modos de fazer, viver” explicou o arquiteto.

COMUNIDADES TRADICIONAIS E EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
Membro do Terreiro Bantu/Indígena Caxuté que desenvolve a iniciativa de uma escola não formal no povoado de Cajaíba no município de Valença no território do Baixo Sul da Bahia, Chico Nascimento tratou junto com a conselheira estadual de cultura e integrante da comissão estadual de cultura, Suely Mello, sobre o tema dos povos e comunidades tradicionais como quilombolas, indígenas, marisqueiros, pescadores, no contexto de um educação anti racista.

Para Nascimento o texto da Constituição brasileira não contempla os interesses dessas comunidades. “A legislação brasileira é muito generalista e as leis existentes não foram devidamente discutidas com estes povos. Os processos de subalternizações que nos caracteriza - trazido pelos colonizadores, fundado numa visão eurocêntrica - toma a fala das comunidades e povos tradicionais. Assim uns falam por outros, não falam com o outro. Quem deve falar por nós somos nós”, afirmou.

“Assim, é necessário avançar no entendimento dos direitos das comunidades para dar vez e voz à fala de seus atores. Quem conhece a comunidade é quem vive. E a gente não pode passar pelo tema da educação antirracista sem passar pela conversão do pensamento colonizado que nossas escolas ainda fazem valer. Nesse sentido as escolas têm sido um local de reforço, não de mudança da realidade”, seguiu Nascimento.

CAPOEIRA E GESTÃO SÓCIO CULTURAL
A mesa seguinte foi composta pelo capoeirista Mestre Balão, fundador e presidente do Instituto CTE Capoeiragem, Lucas Seara, advogado e mestre em desenvolvimento e gestão social pela UFBA, com mediação de Maria Paula Adinolfi, antropóloga do IPHAN e coordenadora da salvaguarda da capoeira na Bahia.

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Maria Paula iniciou a discussão sobre o assunto com um enfoque voltado para as escolas públicas. De acordo com ela, a capoeira tem sido levada para as aulas apenas na educação física, sendo que seus aspectos culturais e históricos não recebem tratamento.

Metra Balão, contou para o publico sobre sua experiência de mais de 30 anos dedicados à capoeira e a criação do CTE Capoeiragem no ano de 2000 neste percurso. Assentado em valores da tradição histórica e ancestral da capoeira, o grupo esta presente hoje em várias partes do Brasil com um trabalho bem desenvolvido com as crianças.

“A capoeira chama as crianças, você abre uma escolinha de capoeira com duas ou três crianças e quando você vê já tem mais de 100 crianças. Para elas é um mundo muito lúdico, com histórias, músicas e atividade física”, assinalou para quem a prática da capoeira é um instrumento capaz de mudar a realidade de crianças e jovens das periferias.  

O advogado Lucas Seara, por seu turno, fez uma abordagem de questões de gestão das organizações da sociedade civil (OSC) e apresentou a OSC Legal, plataforma voltada ao fortalecimento destas organizações que possui quatro eixos: plataforma digital, formação, assessoria e advocacia. 

“Acreditamos que tornando acessíveis a compreensão dos documentos e legislações pertinentes, contribuímos para facilitar a compreensão dos conceitos e procedimentos necessários para a regulamentação e o desenvolvimento dessas organizações que em grande parte estão relacionadas a atividades sócio culturais. O conhecimento da “arquitetura” institucional é fundamental para acessar as políticas públicas”, disse Seara.

PORQUE O SAMBA NASCEU FOI NA BAHIA
A última mesa da sexta-feira, 16, abordou o contexto do reconhecimento, a partir de 2005, pela Unesco do samba de roda como patrimônio imaterial da humanidade e as estratégias e políticas para sua salvaguarda na Bahia.

Sobre o título de “Porque o samba nasceu foi na Bahia”, o fundador do Grupo Cultural Chegança Fragata Brasileira da cidade de Saubara, Rosildo Rosário, o coordenador geral da Associação dos Sambadores e Sambadeiras da Bahia, Alexnaldo dos Santos, e o professor de dança e capoeira, representando a Associação Comunitária Recreativa do Afoxé Filhos do Congo, Nadinho do Congo, debateram o tema.

“Não podia deixar de ser, que nossa programação no Fórum Social Mundial, integrando o Comitê de Políticas Culturais, terminasse em celebrar, mas sobretudo celebrar também a fala dos mestres de todo o processo do ritmo, do conhecimento, da ancestralidade de nosso estado nação chamado Bahia”, declarou o presidente do CEC, Emílio Tapioca.

Para Rosildo Rosário, a implantação das associações e o mapeamento dos sambadores se constituiu na primeira etapa de um processo que necessitava se fortalecer em várias direções. “Num primeiro momento daquele anúncio [da Unesco] o que se notava também era um influência pentecostal que vinha enfraquecendo as práticas, festas e manifestações intimamente ligadas ao samba de roda”, declarou Rosário.

Ainda para Rosário, a defesa do patrimônio imaterial do samba de roda buscou na experiência da capoeira uma referência. “As atividades de formação e transmissão entre os jovens, o próprio emprego da expressão “mestre” para os detentores de conhecimento e experiência nas práticas de samba de roda, nós fomos buscar muito na capoeira um modelo para orientar este fortalecimento”.

Nadinho do Congo defendeu a necessidade da abertura de espaços para divulgação e debate de temas relativos ao patrimônio imaterial de práticas ancestrais dos povos negros como o afoxé, que hoje já é reconhecido como patrimônio imaterial da Bahia. “Salvaguardar estas práticas é de grande importância, se não fizermos isso agora, os que virão não terão direito de aprender. E aprender essa história tem que se dar por dentro, por quem faz, não apenas como objeto, por exemplo, acadêmico. Nesse sentido vamos continuar resistindo e avançando, nos fortalecendo para nos transportar para o futuro”, afirmou. 

Ao fim, a mesa diretora do CEC, Emílio Tapioca e Ana Vaneska, agradeceu a todo o corpo de funcionários do CEC, ao apoio dos funcionários do Museu de Arte da Bahia, na figura de seu diretor, Pedro Arcanjo, ao suporte do governo da Bahia, nas pessoas da secretária de Cultura, Arany Santana, e do governador Rui Costa, a todos conselheiros e conselheiras, aos facilitadores do Fórum Social Mundial e ao público presente durante a programação do Comitê. A partir daí o público caiu no samba com a apresentação do grupo de samba de roda da Associação de Sambadores e Sambadeiras da Bahia.

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COMITÊ DE POLÍTICAS CULTURAIS
O Comitê de Políticas Culturais foi capitaneado pelo CEC para participação no Fórum Social Mundial e composto ainda pelo: Movimento Social dos Povos Brasileiros, da Organização Filhos do Mundo, da TV Kirimurê, do Instituto Hori, da Rede Colaborativa de Cultura, Arte e Informação (ITEA), da Comissão Estadual dos Pontos de Cultura, do Fórum de Cultura da Bahia, do Movimento Verdetrem do Subúrbio Ferroviário de Salvador, da Associação dos Dirigentes Municipais de Cultura, da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias.
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